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segunda-feira, 13 de agosto de 2018

as sete encruzilhadas do frei

Quando dizemos "chegamos a uma encruzilhada" o mais das vezes a expressão não corresponde ao que queremos dizer; encruzilhada tem pelo menos três caminhos, aquele pelo que viemos e mais dois.  Ou três, e aí a forma de cruz é perfeita (são as encruzas fêmea e macho na Umbanda).
Mesmo a de três (trata-se na verdade  de uma bifurcação em ângulo reto) oferece diversas opções. Voltar, ficar parado na confluência, ou seguir por lá ou por cá.  E mais uma opção na encruzilhada de quatro; nenhuma portanto significa escolher entre DUAS coisas apenas.
Temos na Umbanda o Caboclo das Sete Encruzilhadas, termo mais associado  aos Compadres, Caboclo esse da linha de Oxóssi e por um curioso caminho também ligado a Obaluaiê, cujo dia este ano cai numa quinta, dia dedicado a Oxóssi; e me mandam falar um pouco dele aqui. E de suas encruzilhadas.
Esse Caboclo foi em vida um frade jesuíta de origem italiana, não um indígena apesar de ter tentado catequizá-los no Maranhão. Não parece ter sido longa, se existiu, a sua permanência no Morro do Castelo no Rio, como sugere o excelente documentário sobre o Morro, recentemente mencionado aqui. Dos sertões maranhenses voltou para Lisboa onde a vida o fixara, e o resto é História. Sua fama de taumaturgo, sua insistência em atribuir o Terremoto ao castigo divino, suas amizades com influentes inimigos da Coroa o condenaram à fogueira já bem idoso, o derradeiro sentenciado a ela, em 1761.
Malagrida deparou-se de cara com a encruzilhada do que fazer com a sua vida, e optou por ser frade. Foram vindo as outras, entre as quais falar ou calar (ele falou)  e a última foi abjurar, fingir que abjurava ou aceitar que dissessem que abjurava os erros imputados, pois foi garroteado antes de morrer, pena suavizada em relação a "ir a morrer vivo" como se dizia. O garrote luso era de couro e aplicado com o réu já amarrado (em tudo diferente da horrenda invenção espanhola que era castigo em si).
O Caboclo chamou a si essa alma pela ligação com a nossa terra e seus primeiros donos, e isso vai bem na linha de Oxóssi. O dom de taumaturgo e o fogo abriram uma porta de comunicação com Obaluaiê. Esse Caboclo tem grande poder de cura para moléstias da pele, mandadas ou não. Sete chacras são as suas encruzas, mas chegou a hora de calar e homenagear esses dois grandes orixás, o frei Malagrida e o Caboclo.
Salve o 16 de agosto, salve a quinta-feira. Salve o Caboclo da Sete Encruzilhadas.
A toto, Okê Arô.


sexta-feira, 10 de agosto de 2018

a lei no bolso

E olha que não ligo para Dias Internacionais da Mulher... (li que a Escandinávia leva a sério o festejo, regado a álcool a noite inteira enquanto os homens olham as crianças).
Mas se fosse preciso, as páginas policiais dos últimos dias nos lembram o que já sabemos, muita mulher morre porque é mulher. Não se trata de assalto, explosão, bala perdida (mas encaixa em casos de terrorismo de um tipo infelizmente tornado comum no Velho Mundo). Vimos mais uma vez estes dias que o flagelo atinge mulher de pedreiro e advogada, sulista e nortista, judia e cristã, e é perfeitamente igualitário na cor de agressor e de vítima.
A maioria dos homens e mulheres a favor da lei de 2015 não acha que todo varão seja estuprador só por ser varão. Naturalmente o representante da bancada da bala que concorre ao cargo máximo, eu não escrevo palavrão, perguntou às mulheres o que preferem, "a lei do feminicídio no bolso ou a pistola na bolsa". Nem parece que ele num assalto teve de entregar a sua para o assaltante, e era então um homem jovem e forte com preparo físico superior à imensa maioria das mulheres.
Morrem meninas de 16 anos e menos, morrem mães na frente dos filhos; e mulheres casadas de novo que tentavam reconstruir a vida, até o agressor brotar da calçada. De todas as cores e religiões e de todas as regiões e faixas sociais. Desde sempre.
Uma lei não corrige modo de pensar de ninguém. Mas saber que a pena será agravada, e aumenta de um terço mais se o crime se der em presença de filho, ajudará a coibir e em todo caso é o mínimo a se fazer pela vítima.
Elza Soares defendendo a mulher que apanha em casa canta " Você vai se arrepender de levantar a mão pra mim".  A lei defende as que não tiveram tempo ou coragem, como na canção, de dizer "Cadê meu celular?" e ligar pra polícia.

domingo, 5 de agosto de 2018

as calçadas de paraty

Não estou aqui para quebrar lanças pela Festa Literária de Paraty, até porque, conhecendo alguns dos que vão, observo que muitos ou buscam o lugar da moda ou querem falar o mais alto possível; pouco lêem e às vezes acho que o nome deveria ser trocado. Festival Organizado de Debatedores, quem sabe? não, esse talvez não dê certo.
Mas se não freqüento a FLIP gosto muito da cidade e reconheço que não é amigável aos cadeirantes. Nenhum sítio histórico é. Nenhum foi pensado para cadeirante e não menos porque não existiam cadeiras para eles; então não posso concordar com o jornalista que levou um tetraplégico à cidade, conhecendo-a: parece que com intenção de criar caso e de reclamar que a prefeitura não ajeita as calçadas (o que seria proibido no quadro do tombamento).
Mas sim, a festa perde uma oportunidade de deixar de ser barreira e tornar-se porta aberta: bastaria para a duração do evento instalar calçadas e rampas reutilizáveis nos principais acessos.
Macchu Picchu, Huayna Picchu e as torres de Notre-Dame não comportariam esta solução. Paraty comporta. Para a duração do evento anual.
Vivam as cidades tombadas, e viva a qualidade de vida dos cadeirantes, que possam deixar de sê-lo como alguns já vêm deixando.

domingo, 29 de julho de 2018

montando o "Desmonte"

Esse tem de ser visto. A pequena sala em Botafogo vem lotando dias à frente, mercê da venda virtual, mas eu consegui ver no Catete com um amigo, na salinha "protegida por Nossa Senhora da Glória"  emoldurado por música ao vivo e Lua cheia.
Inúmeros motivos para ver "O Desmonte do Monte", além do óbvio de ser a nossa História. A pesquisa séria. A riquíssima iconografia, usando Debret, Rugendas, Eckhout, fotografias dos séculos XIX e XX, mapas e o escambau. Os documentos sonoros provindos do Museu da Imagem e do Som.
A trilha sonora que além dos previsíveis e bem-vindos choros de Callado e Chiquinha inclui o "Canto das Crianças Guaranis", um clássico lançado na década passada e...a narração de Helena Ignez, com voz de mulher de trinta anos.
Por mais informado que você seja, provável que descubra algum detalhe. Não sabia eu de um pormenor crucial,: o prefeito Sampaio que por duas décadas insistiu no criminoso desmonte do morro do Castelo, era simplesmente sócio da companhia de demolição que por fim o executou.
Como sabemos, o único vestígio tombado do Morro do Castelo é um pedaço amputado da Ladeira da Misericórdia, em pé-de-moleque, ligando hoje o nada ao lugar algum. E menos mal que alguém teve dor na consciência na última hora. Aconteceu com o Chafariz do Moura do qual sobrou uma placa e com o Mercado Municipal do qual nos resta uma das torres, o Albamar; o segundo mercado, o art-nouveau. Do mais antigo, colonial, só restam gravuras e descrições, e o nome da rua.
Mas, e isso não está no filme, do OUTRO lado temos vestígios também, na área apropriadamente conhecida por "Castelo". Havia outras subidas por aquele lado, ainda visíveis mas como não houve tombamento quem sabe o que sobrará ao término da construção do que estão erguendo por ali?
Os desabrigados do Castelo não foram realojados, não existia a prática e se tivesse existido, teriam sido jogados para uma Vila Kennedy "avant la lettre". Receberam uns tostões e rua! Quando passar pela avenida rumo ao Fórum e Candelária, separe uns instantes para pensar neles.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

que a terra se molhe com a bênção dos céus

Saluba Nanã.
Nanã nos dá a sabedoria de enxergar o que há de positivo em aspectos nossos de que temos medo. Nos exige e nos faz detalhistas.
Nos ensina a diferença imensa entre terra que a chuva molha e terra que temos de regar.
Mostra através de seu manacá cheiroso que sempre há veios de força, superação, sedução e axé possíveis ao longo do ano.
E rege animais e pássaros de aspecto mais discreto, como as rolinhas cor de barro. E alguns desses cantam e encantam.
Os peixes do fundo do mar lhe pertencem, e seja este protegido da cobiça humana.
Que a terra se molhe com a bênção do céu, e Saluba, Nanã.

sábado, 7 de julho de 2018

que a bolha estoure logo

Que o bico do beija-flor
reduza essa inflada bolha
a um miolo multicor
que ele possa vir sugar;
 todo racismo é abismo
toda clivagem é voragem
todo Brasil é mestiço
todo mestiço é Brasil

Que a bolha estoure logo.

terça-feira, 26 de junho de 2018

ianga ke tipoi, ianga

Agora a macumbeira aqui magoou, e se irritou feio.
No meu querido Circo Voador não. E nem em lugar nenhum. Nem contra ninguém de qualquer cor ou origem.
Não estava lá nessa noite, mas aprecio o maravilhoso trabalho dos ou da DJ, sempre voltado para a produção de todos os rincões brasileiros; nessa noite era uma moça, segundo a coluna do Ancelmo. E decidiu pôr pra tocar "Axé de Ianga/ Pai Maior", que bombou pouco antes do ano 2000 e para os que não ligam o nome à melodia tem o refrão, "Ianga ke tipoi iangá, didianga me".
Sou fascinada pela estrutura das línguas bantas mas os parcos conhecimentos nunca me alcançaram para entender o verso nem achei tradução. O que vem ao caso é a reação de outra moça na platéia, que armou barraco porque a DJ "era branca e não podia tocar essa música".
Querida, pode  tocar, cantar, divulgar e o que mais lhe der na gana, eu também e cada um de nós, brasileiros ou não, podemos. RA-CIS-TA!
Acabo de rever "Ianga" , pela Dona Ivone no bar Pìrajá e pelo Jongo da Serrinha (na Caixa, pelo jeito) este com a presença de músicos negros e brancos como Luiz Felipe de Lima, do candomblé, e a própria Dona Ivone. Que saudades da roda do Gallotti dos tempos do Sobrenatural. Que existe e Deus o proteja, mas sem a roda mágica; composta e freqüentada por gente de todos os tons e procedências. Lá por 1998 "Axé de Ianga" era o carro-chefe; antes fora a chiba de Nei Lopes, que a maluca vai dizer que não podia ter sido tocada.
É proibido agora gostar de Dona Ivone? é preciso ser negro. e de matiz tolerado pela patrulha? Ficou suspeito ser de qualquer outra cor num país de mestiços? Muito além de Dona Ivone, ficou ruim ser da Umbanda, ser mestiço, ser ruivo ou louro ou japonês?
Os ancestrais de muitos "brancos" brasileiros não tiveram culpa alguma da escravidão porque chegaram depois ds Abolição. Os ancestrais de muitos "negros" tiveram, porque venderam os seus
contra-parentes e desafetos aos portugueses (os muçulmanos tendiam a arrebatar mais do que comprar, mas compravam também, na outra costa); porque em terras africanas grassava a escravidão, talvez sem "tronco" mas com sacrifícios humanos; porque tão logo eram alforriados aqui, compravam escravo.
Não é mais patrulha, agora é racismo declarado; virá de uma minoria mas será bom rever os objetivos. Até porque estamos na iminência de ver o cargo máximo da nação ocupado por um sujeito que declarou que nos quilombos os homens nem servem mais pra reproduzir. Deveríamos estar TODOS na rua sem "alas de cor"  exigindo que seja julgado AGORA, como exige o calendário, pelo crime de ameaça e injúria que cometeu contra a deputada.
Que os Pretos Velhos tão citados em "Pai Maior" nos possam valer. Que Xangô nos dê justiça.