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quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

"liberte nosso sagrado"

Estreando, uma jovem produtora lança o curta deste nome, parte do movimento para que a Polícia Federal, cujo prédio entrara em obras há poucos anos, enfim libere os objetos de culto apreendidos durante alguns períodos, há cerca de um século no Rio de Janeiro; tempos em que os batuques eram proibidos. Em que os delegados eram quase todos "Cinco-Palhas".
O lançamento conta com camisetas de todas as cores e na pre-estreia estavam algumas das dirigentes entrevistadas no filme. Antes guardados atrás de vitrines, e guardados a sete chaves, sendo raríssimas as oportunidades de acesso, os objetos nem se sabe muito bem em que condições estão guardados hoje. As vitrines se vêem nas fotos publicadas na Revista "História" da BN por volta de 2006, e logo após ler a matéria tentei durante meses ver as coleções. Afinal o repórter as visitara!
Mas ele não era de nenhuma religião que tivesse objetos sagrados trancafiados na PF, e apesar da simpatia dos policiais da época e da insistência que os levou a mostrar-me outras coleções apreendidas, roletas de bicho, material de ciganos, cachimbos de barro que os escravos usavam para fumar maconha, o que viera ver não vi.
O transcorrer dessa novela está pormenorizado em "UMBANDA GIRA!"  que saiu em 2010.
Há dez anos ou mais, portanto, a Revista da B.N. pôde ter acesso. Tudo bem, era a Revista da B.N., da prestigiosa Biblioteca Nacional. E as peças nem sequer estão mais onde os jornalistas as viram, por conta da reforma que houve; é mais do que lícito que as entreguem de volta e que  se faça um museu, já que se recusaram todo esse tempo a permitir o acesso a todos, demonstração de boa vontade que não existiu. Parece que ainda somos criminosos.
Agradeço o convite a mim feito pela produção e faço minhas as palavras, LIBERTEM NOSSO SAGRADO!

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

pela democracia

Antes que saísse absurdamente de cartaz, corri assistir a "Vazante". Soube de muitas críticas aqui em Pindorama, e havia uma simpática professora comigo que dizia "lá fora elogiaram porque não conhecem muito a História do Brasil".
Bem, e eu discordo frontalmente das críticas e mais ainda da patrulha ideológica. Por que cargas d´água agora é preciso fazer automaticamente a apologia da casta X ao falar do problema Y? No caso dos negros assim vamos acabar proibindo Debret. Sim, Debret. Vocês viram o caderninho de rascunhos dele? Podem ficar descansados que o poder na época também não gostou nada do que entendeu como acerba crítica social e tentou varrer a obra do mestre para debaixo do tapete.
Para voltar a "Vazante" vejo duas coisas além da interessante pesquisa musical e dos figurantes não pagos, meus amigos queridos, corruíras, tico-ticos e pássaros da noite.
Vejo e todos vimos sim revolta dos escravos na figura de determinado grupo étnico, que os bantos não entendem; e na pessoa de um deles que come terra, não aos pequenos punhados como devoram as pessoas que têm lombriga ou outra deficiência até hoje; e sim barrigada de lama, uma das formas de suicídio tradicionalmente adotada pelos que se recusavam a viver assim.
Acima de tudo vi na personagem da sinhazinha descabelada uma pureza bíblica, uma forma de aceitar as instituições sem aceitá-las que lembra o Nazareno. Vê as crianças da senzala almoçando o seu angu, direto na mão sem o luxo do pratinho de folha de bananeira que até hoje se usa em cultos e em mundéus do interior; uma delas lhe sorri e ela se ajoelha e come também. Não, não pensa que assim lhes tira parte do magro sustento; é uma criança quase, egoísta como todas.
O fazendeiro trata (talvez algo romanticamente) o seu rival escravo como um rival, não um escravo. Na vida real o castigo poderia ter sido muito pior. E a garota destrambelhada ainda tem entre outros um papel digno de Antígona. Não a vemos (ainda) enterrar  os mortos proibidos de sepultura; mas sim amamentar a criança mestiça, quase gêmea da sua.
Fez-se um filme delicado, corajoso e inovador; não ditemos aos cineastas o que filmar nem aos escritores o que escrever porque quem dita é, claro, ditador.
E Epa Hei Oyá.


terça-feira, 28 de novembro de 2017

o desafio

O Rio não vai pra frente enquanto não solucionar o espinhoso e sobretudo, multifacetado problema da Polícia Militar.
Nem podem seguir morrendo à razão de um a cada dois ou três dias nem devem seguir atirando a esmo e matando gente que até prova em contrário é inocente.
Não é de hoje que autos de resistência são forjados, eu mesma conheci um rapaz que absolutamente não era bandido mas tinha ido comprar maconha na hora errada; correu e... ia sendo enterrado como indigente mas com a carteira do Exército no bolso. Algo está muito errado na formação que recebem.
Parece por outro lado insensato, e insensível, achar que não devam atirar de todo. Claro que vão atirar, não são guardas civis. Os bandidos portam fuzis muito melhores e miram para matar.
"Aquele" político já declarou que "PM tem mesmo é que matar bandido". Nobre deputado, o problema é que não matam só bandido. Há uns seis meses, o principal jornal do Rio não noticiou mas a favela Mandela fechou a avenida por causa da morte de um senhor que lia o seu jornal na porta da sua vendinha. Quando viu chegar a viatura, levantou assustado para entrar em casa e ali mesmo foi fuzilado, o policial considerou atitude suspeita.
Uma das raízes da violência da PM, além da formação deficiente, é o medo que muito logicamente sentem os policiais e exemplificado no caso do vendeiro. Precisaríamos, precisamos, e com urgência, de uma Lava-Jato das armas. Como chegam à mão do tráfico? por quais caminhos?
Ainda este ano prenderam um PM que vendera a sua arma ao tráfico e a declarara perdida. Sim, este é um caminho. Há outros.
Sempre bom lembrar que a democrática Suécia dos direitos humanos das maiores fabricantes de armas. Parece incompatível mas eles não acham...
Quando essa nova operação Lava-Jato desvendar as rotas desses fuzis, amigos "daquele" deputado vão se ver em maus lençóis. E não custa lembrar, sem consumo, morre a boca...
Que os vento de Iansã nos limpem e possam guiar nesse momento.

domingo, 12 de novembro de 2017

3MA em novembro

Em três países africanos, cada um com o seu estilo musical e seu principal instrumento de cordas nacional, formaram-se três músicos que acabaram se encontrando em algum festival, simpatizaram e fundaram o conjunto 3MA. Marrocos, Mali e Madagascar; e aí vão várias línguas além do bambara, do malgaxe e do árabe pois a comum entre eles é o francês e o marroquino na verdade é bérbere e portanto bilíngüe desde o berço.
O bérbere é longínqua parenta do árabe e você entender vinte por cento (ou mais!) de uma conversa em árabe de nada lhe servirá, porque o tamazight  dizem que mais se parece ao egípcio antigo. Nessa língua vêm compostos os versos do marroquino, porém a maioria das músicas é instrumental.
O maliense é bastante sério, como convém a um tocador de kora; as brincadeiras ficam por conta dos outros dois a bordo do alaúde e da valiha de Madagascar. Mas o riso pode ser bem amargo, como na composição "Dum-Tak" que não entrou no disco.
Dum-Tak, explicam, é a "linguagem política na África". Continente esse onde existem apenas três democracias, que Deus as conserve! e nenhum dos três veio de nenhuma das três.
Com mais algumas onomatopéias e ajuda de mimicas, Dum Tak imita discurso de general vitorioso, porrada na multidão, metralhadora (o malgaxe aponta a valiha para a plateia) e antecedido por "dic-dic dic" vira "DicdicdictaktakDUM!" na voz do marroquino ou seja "dictature", ditadura.
O 3MA esteve uma noite no Rio para o Festival MIMO, tocando no BNDES, e o disco também só se ia vender naquela noite. Aos que não tiveram a oportunidade resta vê-los pela rede virtual, e torcer por outra visita.
E nesses dias, em que são comemorados a fundação oficial da Umbanda e também a Consciência Negra, mandar um axé de volta para o outro lado da Calunga desejando melhores ventos parece adequado...

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

mais notas musicais

Neste momento em que as únicas boas notícias nos vêm da música, revela-se mais uma orquestra de crianças e jovens, além da de Paquetá que comentamos recentemente. Na verdade ambas existem e florescem há alguns anos, estão é vindo a público cada vez mais. A que ouvi na MEC FM ontem, 5 de novembro só disse o nome nos minutos iniciais, que perdi; mas deu para entender que visa os jovens de determinada favela, da Gruta. A Gruta que conheço fica em Madureira, prolongando a Serrinha; será ou não a mesma Gruta. Nível muito bom, e repertório  da audição (dizia o maestro que representativo) feito para me agradar: barrocos, Guerra-Peixe, e o lindo adágio para oboé conhecido por "Anônimo Veneziano".
Mais importante que o nível e repertório é musicalizar os jovens, afastá-los do dinheiro fácil do crime e levá-los a trilhar outros caminhos: assim orgulha-se o maestro, nem todos vão seguir música. Mas se tornam apreciadores, e todos fizeram ou fazem uma faculdade; física e biomedicina, opções que as famílias consideravam de maluco, enfermagem e geografia foram citadas.
Os já formados em música musicalizam as crianças; um trabalho que deveria estender-se ao Brasil inteiro. Um dos jovens contara ao maestro que agora se sentindo cidadão de sua cidade, indo aonde melhor lhe parece, observou que a mãe quase não saía da favela; como ele antes de participar do projeto. Então levou-a a um shopping para comprar roupa. E ela entrou de cabeça baixa. E isso, segundo o rapaz, resumia para ele todo o valor da experiência: a música tornou-o um cara que anda de cabeça erguida.
Precisamos erguer a cabeça do país.



terça-feira, 24 de outubro de 2017

sonoridades

Concordamos todos que se faz cidadania com educação. Mas os pais devem lembrar que educação começa em casa. O caso tétrico do garoto que sofreu perseguição na escola e acabou matando dois colegas com a arma dos pais é emblemático. Um dos responsáveis declarou que "não há culpados"; talvez não haja é inocentes.

Um bem-intencionado programa da Secretaria (de Saúde, creio) voltado para secundaristas e destinado a evitar alcoolismo e outras dependências químicas AUMENTOU, reconhecem, o uso de álcool entre os adolescentes do programa. Algo deu errado e será preciso corrigir a trajetória... e o nome. Algo voltado pra estudantes e chamado "Tamo Junto" (sic) já tinha começado torto.
A UERJ parece que vai mesmo fechar, e o quadro geral da educação é pavoroso.. para nada dizer das aulas de religião, quando faltam professores de português e todos os religiosos consultados por pesquisas, de rabinos a pais de santo, são contra o formato que só beneficia  AQUELE grupo religioso...
Por isso, em meio ao zumbido das balas que deixam fechadas tantas escolas, merecem muitos e muitos aplausos todos os projetos que levam música às crianças e adolescentes. Orquestras estão se formando, se formaram e brilham, em Barra Mansa, na Maré, e outro dia ouvi a de Paquetá. Existe há vários anos e está fazendo bonito!
Essa, da terra da "Moreninha", que finalizou a apresentação de uma hora na Rádio MEC tocando após muitos clássicos uma composição do Tom Zé, pela qualidade, originalidade, e competência acho que vai virar meu xodó.
Palmas e mais palmas para todos os que incentivam a cultura e a cidadania, começando por onde se deve, com o cidadão de amanhã.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

as escolhas

A coluna do Ancelmo nos diz que amanhã quinta no Municipal tem...sabe o quê/ apresentação daquela bispa e marido processados por roubo nos EUA (aparentemente o tempo de cadeia foi curto, ou escaparam a ele). Pois é, o querido teatro precisa de fundos.

Mas como dizia o outro, que fundos imundos...

E a mesma coluna cita o Secretário de Direitos Humanos, ligado à Umbanda, que revela o seguinte: o atual prefeito gravou uma música, anos atrás, em  solidariedade àquele bispo safado que chutou e destruiu uma imagem.
Caramba, disso eu não sabia. Solidariedade ao ponto de se gravar cantiguinha é muita solidariedade.
Recentemente um mãe de santo do candomblé, em Nova Iguaçu, destruiu as imagens do Ilê  sob ameaça de paus e ferros. 
É fácil dizer  que "preferia morrer a fazer isso". Difícil não julgar, ainda mais que a mãe de tão assustada não quis prestar queixa, o que seria um mínimo.  A selvageria dos agressores se volta sempre contra as imagens; como eles não gostam querem que ninguém mais goste e ficam cegos à obviedade: imagens são apenas portais.
Mas, se alguma religião adorasse as imagens como divindades ainda assim eles não teriam o direito de destruí-las.
Que Xangô nos possa vingar. Salve a pedreira.