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sábado, 7 de julho de 2018

que a bolha estoure logo

Que o bico do beija-flor
reduza essa inflada bolha
a um miolo multicor
que ele possa vir sugar;
 todo racismo é abismo
toda clivagem é voragem
todo Brasil é mestiço
todo mestiço é Brasil

Que a bolha estoure logo.

terça-feira, 26 de junho de 2018

ianga ke tipoi, ianga

Agora a macumbeira aqui magoou, e se irritou feio.
No meu querido Circo Voador não. E nem em lugar nenhum. Nem contra ninguém de qualquer cor ou origem.
Não estava lá nessa noite, mas aprecio o maravilhoso trabalho dos ou da DJ, sempre voltado para a produção de todos os rincões brasileiros; nessa noite era uma moça, segundo a coluna do Ancelmo. E decidiu pôr pra tocar "Axé de Ianga/ Pai Maior", que bombou pouco antes do ano 2000 e para os que não ligam o nome à melodia tem o refrão, "Ianga ke tipoi iangá, didianga me".
Sou fascinada pela estrutura das línguas bantas mas os parcos conhecimentos nunca me alcançaram para entender o verso nem achei tradução. O que vem ao caso é a reação de outra moça na platéia, que armou barraco porque a DJ "era branca e não podia tocar essa música".
Querida, pode  tocar, cantar, divulgar e o que mais lhe der na gana, eu também e cada um de nós, brasileiros ou não, podemos. RA-CIS-TA!
Acabo de rever "Ianga" , pela Dona Ivone no bar Pìrajá e pelo Jongo da Serrinha (na Caixa, pelo jeito) este com a presença de músicos negros e brancos como Luiz Felipe de Lima, do candomblé, e a própria Dona Ivone. Que saudades da roda do Gallotti dos tempos do Sobrenatural. Que existe e Deus o proteja, mas sem a roda mágica; composta e freqüentada por gente de todos os tons e procedências. Lá por 1998 "Axé de Ianga" era o carro-chefe; antes fora a chiba de Nei Lopes, que a maluca vai dizer que não podia ter sido tocada.
É proibido agora gostar de Dona Ivone? é preciso ser negro. e de matiz tolerado pela patrulha? Ficou suspeito ser de qualquer outra cor num país de mestiços? Muito além de Dona Ivone, ficou ruim ser da Umbanda, ser mestiço, ser ruivo ou louro ou japonês?
Os ancestrais de muitos "brancos" brasileiros não tiveram culpa alguma da escravidão porque chegaram depois ds Abolição. Os ancestrais de muitos "negros" tiveram, porque venderam os seus
contra-parentes e desafetos aos portugueses (os muçulmanos tendiam a arrebatar mais do que comprar, mas compravam também, na outra costa); porque em terras africanas grassava a escravidão, talvez sem "tronco" mas com sacrifícios humanos; porque tão logo eram alforriados aqui, compravam escravo.
Não é mais patrulha, agora é racismo declarado; virá de uma minoria mas será bom rever os objetivos. Até porque estamos na iminência de ver o cargo máximo da nação ocupado por um sujeito que declarou que nos quilombos os homens nem servem mais pra reproduzir. Deveríamos estar TODOS na rua sem "alas de cor"  exigindo que seja julgado AGORA, como exige o calendário, pelo crime de ameaça e injúria que cometeu contra a deputada.
Que os Pretos Velhos tão citados em "Pai Maior" nos possam valer. Que Xangô nos dê justiça.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Salve a pedreira. Antigamente, e talvez ainda seja assim da Bahia pra cima,  o dia 24 de junho, que celebra o solstício, era comemorado nos terreiros também com cerimônias de porte específicas para Exu.
Exu, claro, sempre é louvado antes de qualquer trabalho, até em festa da Beijada, mas eram comemorações grandes para ele, vinculadas ao dia de São João, que até os nossos dias é a maior festa do interior baiano, unindo católicos, majoritários, e os eventuais filhos de terreiro.
No Rio a tradição em algum momento se perdeu, mas está lembrada nos versos do ponto dos Compadres:
- A bananeira que eu plantei à meia-noite, e só deu cacho na noite de João...

Pois salve a pedreira, a bananeira, as pedreiras onde crescem bananeiras e salve acima de tudo a justiça tão lenta em alguns casos, deixando impunes mandantes e pistoleiros, roubadores da vida alheia...
Cauô Cabiecile, fulmine!


domingo, 17 de junho de 2018

notícia simpática e outra que poderá vir a ser

A simpática é que um determinado pastor evangélico, bem novo por sinal, quer despertar os seus  colegas e correligionários para a "pluralidade de vozes" brasileira. Em vez de quebrar imagem e gravar musiquinha louvando quem quebrou, (sigam o meu olhar, cariocas, é ele mesmo!) uma iniciativa de respeito ao próximo já começada pela pastora que ajudou a reconstruir o que os seus fiéis haviam quebrado, creio que em Nova Iguaçu.
Pormenores nos jornais que noticiaram ontem 16 de junho.

A que pode vir a ser simpática mas por ora inquieta apenas, e também carioca, é que existe uma fazenda linda e em bom estado, primeira feitoria do Brasil, na Ilha do Governador, Morro do Cabaceiro. A construção não está tombada e após denúncia, o INEPAC, Instituto Estadual do Patrimônio Cultural abriu processo de tombamento, que precisamos desejar acelerado para conter e reverter as obras indevidas que ameaçam a construção.

Notícias como  estas, com potencial para serem boas vêm sendo raras onde seja então aplaudo, porque na Copa arrisca não haver muita vontade de aplaudir...

domingo, 10 de junho de 2018

algo de podre no reino da Dinamarca. Só da Dinamarca?

Acontece de a gente apoiar uma causa, às vezes contra ventos e marés, para mais adiante vê-la seguir estranhos caminhos. Sempre participei das campanhas da Anistia Internacional, já do tempo em que as cartas eram manuscritas. Agora ficou mais fácil, é um clique, em compensação assino a página de 3 países e ainda há a Avaaz, a ForceChange e outras. Mas nem por isso concordo com a posição da filial tupiniquim de só pedir justiça para crimes da Polícia Militar, sem pedi-la para os cometidos contra os seus membros, dizimados por bandidos nas ruas. Cidadania para todos.
No tempo em que morava fora participava de boicotes ao apartheid sul-africano através da rejeição às laranjas do Transvaal entre outros. De volta aos pagos deparei-me com os brinquedos das lojas e a minha filha foi por longos anos uma das poucas, talvez a única, que possuía Barbies negras e morenas porque as pedi ao meu pai que servia fora. Nessa época, da Abertura, floriram bonecos de pano negros e brancos e bebês de borracha e plástico idem, que ainda se vendem. Mas Barbies não.
Agora porém numa onda cada vez mais patrulhadora, de que tivemos exemplo com o burríssimo ataque ao filme "Vazante", atacam de forma covarde uma atriz porque aceitou um papel sem ter a pele no matiz desejado pela patrulha.
Já foi dito o bastante, o pai da moça é negro. Mas se ela tem sobrenome e cara de italiana, e daí? Escolheu-a em vida a homenageada, e a sua família. E tem mais. Eu que vou pouco a teatro, assisti a duas peças de Shakespeare em que o protagonista era negro. Uma pelo menos era nacional. Não vi ninguém do "colorismo" dizer que dinamarquês no palco não podia ser negro. Talento é talento, e a cor não determina.
 Se Fabiana Cozza, que cumpre compromisso em Cuba, país mestiço como o nosso onde a terão apoiado, imagino, voltar atrás e encarnar a Dona Ivone farei questão de ir assistir. Senão nem as melhores críticas..
Tenho lido as declarações de negros e brancos lamentando essa desistência e essa patrulha. O sambista historiador. A jornalista perita em fotografia. Esse e aquele. Ninguém foi mais contundente do que o cronista que diz ter 17 leitores e meio: " A ira, o preconceito e o racismo demitiram Fabiana Cozza."
Um pouco de bom senso por favor.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

xícara de café

A editora Pallas publicou em seu blog, pela ocasião do Treze de Maio, um conto  avulso meu sobre um incidente sem-esquecido  da família, de antes da Abolição.
Tratei-o como uma história policial, o que na verdade é.
A Pallas me diz que o conto ficará acessível sempre por lá, ilustrado oportunamente com um desenho do Debret; e como dele gosto particularmente espero que entrem lá e o leiam!
Abraços

segunda-feira, 7 de maio de 2018

flotes e balas

Existe um livro muito bem pesquisado da Companhia das Letras sobre Abolição ("Flores, votos e balas").
Traz luz para certos aspectos.
Ao contrário do que se poderia imaginar, a maioria dos abolicionistas  de classe alta, negros e brancos, custou a libertar os próprios escravos. O próprio Rebouças, cobrado pela consciência e por alunos (que também os tinham, em casa de papai)  os foi alforriando uma a um; os derradeiros, três ou quatro, já meses depois do Ventre Livre. Pelo menos todos eles chegaram à Abolição sem cativos.
E nunca será demais dizer, o grande Luiz Sá nunca os teve e se recusava a considerar a idéia. Infelizmente morreu relativamente cedo, de tanto brigar na Justiça usando a lei contra ela mesma a favor dos escravos, e assim libertou muitos. (Luiz Sá é aquele mestiço que foi criado na casa-grande pelo pai português e por este pai vendido para saldar dívidas de jogo; e que prosperou graças ao apoio de rapazes de sua idade, filhos dos amos, e que se tornaram amigos).
Outro ponto esclarecedor é a resistência dos escravagistas no interior, muito maior do se imaginaria, às vésperas da Abolição. De um delegado fluminense linchado barbaramente em casa, diante de mulher e filha, porque era amigo de abolicionistas e se recusava a condená-los; até outras barbaridades, cometidas contra os escravos  (ilegalmente) enquanto "podiam", de pura raiva, por alguns escravagistas. Ilegalmente, porque no papel torturas estavam proibidas havia décadas; se tais relatos chegaram até nós porém, foi que mesmo depois da morte de Sá, ainda houve gente para denunciar.
No livro não consta o nome de minha tia-trisavó, primeira abolicionista mulher no Brasil, por se focar mais a Corte e aquelas províncias que libertaram os cativos antes do Treze de Maio. O que não foi o caso do Pará, onde nasceu e viveu Leonor Porto.
Mas batiza uma rua em São Cristóvão; salve a sua memória e acima de tudo salve os Velhos, no Treze de Maio e o ano inteiro.
Saravá Umbanda!