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terça-feira, 21 de janeiro de 2020

é o cacete

Bem, caiu com estrondo o senhor de ideias medievais que eu chamava de Alvar Vilãm, grafia da época que vivenciava. El-Rei Afonso, o rei poeta, era mais esclarecido do que ele.
Faz bem a alma vê-lo pelas costas mas o esquema da Cultura sob os bovinos poucas alegrias trará.

O impressionante porém (com dois SS, ministro) foi a declaração do mandatário, que se perdeu um pouco em meio às dúvidas (Aceitará a atriz? não aceitará?) para o seu projeto de futuro.
Não apenas mais uma vez fala da sua candidatura apesar das juras passadas de jamais tentar se reeleger, como desta vez foi mais longe.
Declarou candidamente que depois deste mandato poderia se reeleger e que..."mais pra frente quem sabe a gente vê"!
A gente vê o quê, meu inacreditável senhor? a hipótese do segundo não estava prevista em suas palavras ocas, mas estava prevista na lei. O terceiro é golpe, no modelo dos governantes sul-americanos que o senhor tanto critica. Sul-americanos ou asiáticos ou o que seja. nada de sectarismo.

Comendo pelas beiradinhas. Aliados se fizeram inimigos mortais, este senhor caiu como goiaba podre, um dos membros do clã quer deixar a política, vamos lá na fé que uma hora aquilo cai.

domingo, 12 de janeiro de 2020

bagagem cultural

Meus filhos se criaram indo à Casa de Ruy Barbosa em Botafogo, morávamos pertinho.
Pois uma das funções da Casa, tombada, é existir e servir de pulmão verde do bairro, além de permanente exposição de frutíferas, da nossa pitanga tupiniquim à suculenta fruta-pão. Na época existia uma excelente biblioteca infantil, com atividades e livros ótimos, e parece que essa acabou muito antes deste atual governo, o que sempre achei pena.
Meus filhos tiveram sorte. Todas as crianças ainda podem, contudo, brincar nas areias das aléias e se esconder nos dois imensos tanques de lavar roupa, um pra molho, um pra enxagüe.
As outras funções ao lado destas são a pesquisa, e o ser repositório dos acervos de muitos intelectuais como Carlos Drummond de Andrade e outros.
A nova e jovem diretora revolta-se contra o rótulo do "despreparo", pois como explica, trabalhou no Fantástico e portanto não é novata no mundo da cultura. Ah bom.
Não está errada quando reclama que "tanto acadêmico foi incapaz de trocar a fiação"; a Casa se preservar enquanto casa seja talvez a função mais importante de todas. Pra fazer caixa demitiu da função todos os diretores da Pesquisa, decretando que eram muitos. Aí o mérito faz-se mais delicado de julgar, mas foi só o departamento de Pesquisa. Este governo não aprecia pesquisadores, e já deixara claro. Os cinco diretores continuam recebendo como funcionários comuns até se aposentar.
Mas o pior foi a declaração que começa a cansar os ouvidos " eles só faziam sectarismo" e ela vai fazer diplomacia, como Ruy, homenageando Ronald Reagan, piada entre mais da metade dos seus conterrâneos, e Mrs Thatcher. Bem atual.
A respeito sabem o que era uma Iron Lady antes da Mrs, e antes do rock pauleira? um hediondo instrumento de tortura medieval, empurravam a vítima e fechavam a "porta" ou "tampa", cheia de puas de ferro por dentro.
Bem, sabemos quem no governo haveria de gostar da invenção, por tudo que já postou por aí.



terça-feira, 7 de janeiro de 2020

o pior em cada um

"No entiendo ni mierda..." afirmava furioso o jovem turista parado perto da caixa, em feroz discussão ao celular. O interlocutor parecia recomendar que perguntasse algo mas ele não falava nem portunhol o que dirá português e indignava-se porque as pessoas lhe falavam e ele "ni mierda".
À saída eu tirava dúvidas com o gente de frente de loja e ouço "escusê mi!" e passa o bólido, cara de poucos amigos e chapéu de palha de náilon.
- Caramba, com o esforço em falar mau inglês ele aprendia no mínimo portunhol, "escusê mi" francamente... - Contei a fúria monoglota ao celular e infelizmente conclui - Tomara que seja assaltado- abrindo no ato um enorme sorriso na cara do gerente e da segurança. A segurança, moça sem dúvida cheia de artes marciais por trás dos cachos, viva a igualdade.
É que, com ela e o gerente o rapaz já devia ter tentado o contato...
Porque pessoas como o jovem turista despertam o que há de pior em nós.
Assim como desperta o nosso pior gente que elogia milicianos, gente que afirma que jornal alimenta desinformação, gente que chama a mãe do jornalista de "égua sarnenta" e eu espero que perca o processo...
Viu? como despertou? Pessoas que trabalham com o pior, no pior vibram as emoções que despertam.
Entra ano, sai ano...



segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

descanso do guerreiro

Nunca mais nos vimos e ele devia ter me esquecido. Não aguentei o ritmo de um cigarro por minuto e foi só um fim de semana e alguns telefonemas.
Não lhe faltaram decerto consolações. Mas só deixou em mim boas lembranças, até porque em tão poucos dias não existiu espaço pra ele fazer nada que depusesse em seu desfavor. Porém há quem consiga em uma hora; ele não, e  por isso o  tenho como pessoa positiva.
Gostava,  esse grande fotógrafo, de três verbos em F. Um deles infelizmente costuma acarretar problemas letais no pulmão como o que o levou.
Teve muito de tudo o que gostava e fico feliz pela exposição que aconteceu  meses atrás.
Mas às vezes acho que estão lá de cima pegando as pessoas melhores, umas depois das outras.
Descanse em paz, Guerreiro.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

cena carioca

No ônibus pro Grajaú o rapaz de uns 40 e poucos despeja para a mulher a sua opinião da cidade. Não presto atenção, mas ele fala alto e volta e meia se ouvem frases como a que me assombrou: define "esse presidente" como "um frouxo".
Meu Deus, há mutos adjetivos que creio encaixarem muito bem no presidente, poucos dentre estes elogiosos, mas "frouxo" não é um deles. Fico a imaginar o que terá motivado a definição do evidente eleitor desiludido.
(Leio que alguns arrependidos achavam que a coisa seria mais educada, sem queimadas nem desmonte da Cultura e tal. Mas não era este o caso do esbravejante passageiro; era o oposto.).
Bem, a toda hora o mal-vindo chefe de clã diz algo e depois recua (diria que faz pra ver se cola). Para citar alguns recentes, recuou no tocante à "Folha de São Paulo" cuja assinatura no Alvorada pretendia cancelar; recuou na intenção de mandar um ministro qualquer à posse argentina. Disse que não ia e não foi, mas mandou o seu representante mais oficial e que domina o idioma hermano, o seu vice.
Uma destas atitudes terá irritado o passageiro? Ou foi, inacreditavelmente, o conjunto da obra até agora?
Queria ver implementados Atos Institucionais, gente metralhada na rua, pilhas de corpos como após a queda de Allende em 73? Roupas envenenadas lançadas de helicóptero nas áreas ocupadas pelos indígenas, para ver se desocupam o espaço de uma vez?
Na hora do pleito, isso ainda é capaz de escolher o "frouxo" por falta de coisa mais adequada ao paladar. Um terço do eleitorado ainda acha que o "frouxo" é bom governante. Essa fração é que tem de ser trabalhada por todos os que rejeitam o ódio e a intolerância.
Agora.

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

isso sim que é pauleira

Solidariedade com os roqueiros, de modo geral.
De modo específico não encontro em mim solidariedade para os não poucos que votaram nessa geleca aí.
E na Sala Cecília Meirelles o novo diretor quer criar um clima "meio Rock in Rio ".
Te cuida João Guilherme Ripper que já já vão te chamar de satanista.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

não gostei? quebrei!

Vou pouco ao teatro, confesso, prefiro música, balé e cinema. Não dá para ver tudo. Talvez por isso descubro só agora que uma peça sobre Luiz Gama está há quatro anos em cartaz. Salvo engano em dois palcos simultâneos e dias diferentes, a Arena Cultural de Madureira e a  Laura Alvim na Vieira Souto.
E para os que não ligam o nome à pessoa, Gama foi aquele indevidamente vendido pelo pai português aos dez anos (indevidamente, na lei de então; a mãe era livre), um dos principais abolicionistas (não chegou a ver o 13 de Maio) dentre eles o que se recusava a possuir escravos. O incansável Rebouças, nascido livre de pais já livres, infelizmente possuía e libertava os seus a conta-gotas, alguns por pressão de seus alunos (que voltavam para casas onde sem dúvida o papai tinha também os seus). Rebouças assim, com todos os seus méritos encarnou nisto o "jeitinho brasileiro" no que ele tem de pior.
Mas Gama foi um dos maiores homens do Brasil.
Tudo isso para implorar que me esclareçam sobre o que o vereador eleito na capital paulista pelo ex-partido do presidente estava fazendo no Palácio Pedro Ernesto, na Cinelândia, onde quebrou, não uma placa, isso foram seus colegas de chapa, não é? mas um cartaz montado sobre mortes de negros pela PM, cartaz que fazia parte de uma exposição sobre a negritude.
Estive lá esses dias para a homenagem à Umbanda, que foi muito lindamente organizada, mas ou não se mencionou a exposição ou ainda estava sendo montada. O vereador comentou ao quebrar a placa.. ops, desculpe, o cartaz, que se consertassem e pusessem de volta "teria de fazer de novo". Alguns vereadores foram fazer Boletim de Ocorrência, entre eles aquela jovem vereadora do PSol que reclamava durante semanas da falta de memória dos seguranças: de segunda a sexta pediam a sua identidade. A essa altura já devem saber quem ela é.
O vereador paulista depois de ouvir as palavras ponderadas do presidente da Câmara declarou que não escolhera a melhor maneira de se manifestar. Já o colega carioca pendurou no gabinete metade da placa quebrada. Isso e pra gente não esquecer quem são eles, mesmo se deixaram de ser o partido do capitão.