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domingo, 12 de novembro de 2017

3MA em novembro

Em três países africanos, cada um com o seu estilo musical e seu principal instrumento de cordas nacional, formaram-se três músicos que acabaram se encontrando em algum festival, simpatizaram e fundaram o conjunto 3MA. Marrocos, Mali e Madagascar; e aí vão várias línguas além do bambara, do malgaxe e do árabe pois a comum entre eles é o francês e o marroquino na verdade é bérbere e portanto bilíngüe desde o berço.
O bérbere é longínqua parenta do árabe e você entender vinte por cento (ou mais!) de uma conversa em árabe de nada lhe servirá, porque o tamazight  dizem que mais se parece ao egípcio antigo. Nessa língua vêm compostos os versos do marroquino, porém a maioria das músicas é instrumental.
O maliense é bastante sério, como convém a um tocador de kora; as brincadeiras ficam por conta dos outros dois a bordo do alaúde e da valiha de Madagascar. Mas o riso pode ser bem amargo, como na composição "Dum-Tak" que não entrou no disco.
Dum-Tak, explicam, é a "linguagem política na África". Continente esse onde existem apenas três democracias, que Deus as conserve! e nenhum dos três veio de nenhuma das três.
Com mais algumas onomatopéias e ajuda de mimicas, Dum Tak imita discurso de general vitorioso, porrada na multidão, metralhadora (o malgaxe aponta a valiha para a plateia) e antecedido por "dic-dic dic" vira "DicdicdictaktakDUM!" na voz do marroquino ou seja "dictature", ditadura.
O 3MA esteve uma noite no Rio para o Festival MIMO, tocando no BNDES, e o disco também só se ia vender naquela noite. Aos que não tiveram a oportunidade resta vê-los pela rede virtual, e torcer por outra visita.
E nesses dias, em que são comemorados a fundação oficial da Umbanda e também a Consciência Negra, mandar um axé de volta para o outro lado da Calunga desejando melhores ventos parece adequado...

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

mais notas musicais

Neste momento em que as únicas boas notícias nos vêm da música, revela-se mais uma orquestra de crianças e jovens, além da de Paquetá que comentamos recentemente. Na verdade ambas existem e florescem há alguns anos, estão é vindo a público cada vez mais. A que ouvi na MEC FM ontem, 5 de novembro só disse o nome nos minutos iniciais, que perdi; mas deu para entender que visa os jovens de determinada favela, da Gruta. A Gruta que conheço fica em Madureira, prolongando a Serrinha; será ou não a mesma Gruta. Nível muito bom, e repertório  da audição (dizia o maestro que representativo) feito para me agradar: barrocos, Guerra-Peixe, e o lindo adágio para oboé conhecido por "Anônimo Veneziano".
Mais importante que o nível e repertório é musicalizar os jovens, afastá-los do dinheiro fácil do crime e levá-los a trilhar outros caminhos: assim orgulha-se o maestro, nem todos vão seguir música. Mas se tornam apreciadores, e todos fizeram ou fazem uma faculdade; física e biomedicina, opções que as famílias consideravam de maluco, enfermagem e geografia foram citadas.
Os já formados em música musicalizam as crianças; um trabalho que deveria estender-se ao Brasil inteiro. Um dos jovens contara ao maestro que agora se sentindo cidadão de sua cidade, indo aonde melhor lhe parece, observou que a mãe quase não saía da favela; como ele antes de participar do projeto. Então levou-a a um shopping para comprar roupa. E ela entrou de cabeça baixa. E isso, segundo o rapaz, resumia para ele todo o valor da experiência: a música tornou-o um cara que anda de cabeça erguida.
Precisamos erguer a cabeça do país.